Logo que cheguei à ilha, pra dizer a verdade, depois de um ano de ilha, resolvi aprender a mergulhar com cilindro, o mergulho de garrafa como a maioria conhece e pensa que é oxigênio que tem dentro. Na realidade é ar comprimido, claro que tem um percentual de oxigênio também. Mas o oxigênio puro não é benéfico se respirar depois dos três metros de profundidade.

Mas vamos a historia; resolvi aprender a mergulhar, e toda vez que o barco da Águas Claras, (na época a única empresa de mergulho na ilha), ia para o mar levando turistas para o mergulho com cilindro, eu ia com a galera e vez ou outra pintava uma oportunidade de descer, (mergulhar) com algum amigo. Primeiro eram os turistas e se sobrasse uma garrafa cheia ou pela metade eu aproveitava e dava um mergulho. No primeiro dia fui muito legal, eu já macaco velho no mar em ter tido “experiênciado” toda minha infância e adolescência na beira mar de Olinda – PE Mas mergulhar com cilindro é outra coisa, é a possibilidade de você retornar a respirar num meio liquido, e sabe o que isso significa? Retornar as sensações uterinas. Escreverei sobre isso em outro tópico. Mas vamos lá. O segundo mergulho, “ah o segundo mergulho!”. Durante a operação com os turistas, um deles resolveu abortar o mergulho pela metade, e o Rony falou pra mim, – se equipa que vamos descer mais uma vez. Equipei-me, e esperei ele se equipar também. Minha garrafa estava pela metade. Então descemos, eu, Rony e Hayrton que também estava em curso de mergulho. O descer foi fácil, e respirar também, eu não tinha lá essas dificuldades todas, o importante era viver essa experiência para poder trabalhar com mergulho ganhar uma graninha, pois não havia outra opção para eu ganhar grana, ou cantando ou mergulhando. Em determinado momento o Rony passa por um buraco e o Hayrton segue e eu vou também seguindo. Só que como meu cilindro estava pela metade eu estava com tendência de flutuação positiva, ou seja; subindo. E ao passar pelo buraco a torneira enganchou na borda e eu fiquei sem poder ir em frente. Isso fez com que eu respirasse mais rapidamente tornando assim meus pulmões mais cheios e consequentemente mais leve meu corpo ficava e a cada vez, mas difícil de sair dessa. Pensei em tirar o colete e subir, mas graças a Deus não foi possível. Se assim o fizesse eu tinha em mente prender o ar nos pulmões e de uma vez só subir até o nível do mar, mas seria meu fim, pois o ar comprimido preso ao subir iria se expandindo e poderia estourar meus pulmões ou mesmo provocar uma embolia gasosa, e o final seria trágico. Pra frente não dava, pra trás também, gritar não era o caso, bater no cilindro com alguma coisa para fazer som e assim chamar meus amigos não adiantaria, pois não tinha ângulo. E agora? Perguntei a mi mesmo. E a resposta foi que tinha chegado a minha hora. Lembro-me que olhava o manômetro e via cada vez mais o ponteiro ir à direção da zona vermelha, é uma marcação que quer dizer que ta na hora de subir. De repente um Saberé ou Sargentinho, como queira chamar, trata se de um peixinho com listras amarelas e pretas que existem em todo nosso litoral, e muito em Noronha. Um aparece bem em frente aos meus olhos e me diz. – Cadê toda a sua tecnologia? O que você pensa agora? E eu me senti impotente diante aquele peixinho e aquele marzão. Nesse momento a gente não tem a noção de tempo – espaço. Tudo é ao mesmo tempo agora. Eu me vi criança, vi meus pais, irmãos, repensei toda a vida. Não vi nenhum túnel, luz, nem figuras do céu, essas coisas que vêem no leito de morte, eu apenas refletia muito e cheguei a acreditar que esse seria meu fim, mas é impressionante o quanto a gente não sabe um milésimo de segundo sobre o futuro. Nem mesmo ali naquela situação eu poderia afirmar que seria minha passagem, pois isso só a Deus é permitido. Eu imaginava como morrer, não queria ficar esperneando com a presença de água dentro dos pulmões, preferia inspirar e prender o ar até desmaiar. Mas isso foge ao nosso querer, pois o ato dos pulmões inspirarem e expirar se da ao fato do ar ali contido estar queimado ou não. Quando a energia do ar que inspiramos é absorvida pelo corpo os pulmões o expelem para troca de um novo ar. Mas fui me deixando ir, aceitei o fato de encerrar minha jornada ali e me sentia feliz de ser assim. Bom, o fato é que não foi dessa vez. A respiração foi ficando cadê vez mais pesada, o cilindro já estava quase vazio, e eu numa tranqüilidade absoluta, esperando a hora. Já nem me lembrava que tinha mergulhado com amigos, aliás, nem me lembrava que tinha mergulhado. E de repente, não mais que de repente eu sinto uma força me empurrando para baixo e fazendo-me sair do engasgo. Era o Rony, olhei para ele bem calmo e fiz o sinal que estava sem ar, “que é passando a mão por sobre o pescoço como quem se degola”, e ele com um outro sinal mandando me subir, “que é a mão sinalizando legal, com o polegar para cima”. Eu repetia o mesmo sinal e ele repetia o mesmo também ate chegarmos ao nível do mar. E ao tirar minha mascara de mergulho e o regulador da boca eu coloquei todo o ar que havia sobre o mar pra dentro de mim, e gritei para o Rony, Filho da Puta, eu num disse que precisava de ar pôrra!!!! E ele falou bem tranquilamente, – é que o Randal* falou que mesmo acabando o ar nos pulmões, ao subir existe uma reserva que vai expandindo, e eu queria testar isso com você. É claro que não fiquei zangado com ele, e graças ao Rony hoje eu mergulho em Noronha sem um mínimo medo de faltar ar, desde que seja mergulho de até no máximo 17 metros.

*Randal Fonseca, Um dos melhores mergulhadores do mundo, e proprietário da primeira empresa de mergulhos em Noronha.